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A experiência (e o desafio!) de produzir uma cobertura colaborativa em tempos de pandemia

A experiência (e o desafio!) de produzir uma cobertura colaborativa em tempos de pandemia
João Ricardo Cararo Lazaro
jun. 15 - 10 min de leitura
020

Por João Lazaro e Isabela Rosa

No universo educomunicativo, é muito comum nos habituarmos com práticas usuais da nossa profissão, como produzir oficinas de fanzine, vídeo, podcast, fotografias e jornalismo. Nós mesmos (estes que vos escreve) já sabíamos as principais estratégias e atividades necessárias para realizar uma cobertura colaborativa de um evento. Aprendemos a partir de excelentes exemplos da Imprensa Jovem, projeto de protagonismo infanto juvenil de escolas públicas da cidade de São Paulo (SP); e também com o Educom.Cine, projeto de extensão da Universidade do Estado de Santa Catarina, realizado desde 2015, em Florianópolis (SC). 

Aprendemos isso, porém, a partir de uma perspectiva do ensino presencial, o dito “antigo normal”, na vida que estávamos acostumados a viver sem imaginar que viveríamos um dos maiores desafios da nossa profissão: reaprender a fazer uma cobertura colaborativa de evento em meio a um isolamento social.

É nesse contexto que aceitamos o desafio de fazer a Direção Técnica e a Cobertura Colaborativa de um evento com mais 2.000 pessoas inscritas, e duração de 11 dias, em 2020, com alcance internacional: O II Seminário Inter-Redes do Programa Horizonte Oceânico Brasileiro (HOB).  

Mas, primeiro, deixe-nos explicar o que é o programa HOB e qual sua relação com a Educomunicação. O HOB é promovido pelo  Painel Brasileiro para o Futuro dos Oceanos, o PainelMar, uma plataforma colaborativa de natureza mista, voltada para a articulação de redes de conhecimento costeiro-marinhas. O objetivo do HOB é oferecer uma estratégia de ação para atuação na interface entre o conhecimento e as políticas públicas voltadas para a zona costeira e marinha.

Dentre as principais ações do Programa HOB, está a organização de ciclos de Seminários Inter-Redes Costeiras e Marinhas, eventos que integram times de pesquisa-ação, promovem debates, divulgam conhecimentos através das publicações do Programa e são catalisadores das ações das pessoas que o integram. Nesses ciclos, a educomunicação funciona de maneira transversal, promovendo espaços de construção coletiva e capacitação na criação de produtos áudio-scripto-visuais para divulgação dos resultados alcançados.

E, assim como as escolas e universidades, as demais organizações precisaram transpor para formatos virtuais suas atividades, congressos, colóquios e tantos outros eventos acadêmicos e científicos. A adaptação de eventos para a modalidade online foi uma maneira relativamente segura, do ponto de vista sanitário, de reunir um público grande, e de diversas partes do planeta, em um local para debater assuntos, compartilhar ideias e construir conhecimentos. Assim, o Programa HOB cancelou a realização presencial do seu II Seminário em Brasília, e adaptou-o para a realização de forma 100% online.

Mas, como continuar reunindo as pessoas em ambientes de comunicação qualificada? Como estruturar, organizar e mediar uma cobertura colaborativa para um público voluntário, de diferentes locais do Brasil? Nossa principal pergunta era “Será que o que fazemos é educomunicativo?”. Uma das primeiras lições que aprendemos é a importância da roda, da escuta, do diálogo e das atividades mão na massa. Tal pergunta, já adiantamos, continua balizando qualquer ação que planejamos e executamos desde então.

 

PRODUZINDO UMA COBERTURA COLABORATIVA ONLINE

A cobertura colaborativa, que abreviamos como Cob-Colab para esse evento online, teve algumas diferenças, em relação ao presencial, quanto a forma de planejar conteúdos e de se organizar para produzi-los. O que chamamos de “Cobertura Colaborativa” teve a premissa de propor maneiras de criar “produtos educomunicativos” em processos participativos, utilizando-se de permanente interlocução e da sistematização de produtos que expressem o conhecimento produzido no grupo e que deem conta de socializar o conteúdo gerado durante os 11 dias de webinars. 

Para darmos início ao processo da Cob-Colab elaboramos uma estrutura básica de documentos colaborativos que incluíram:

  • um repositório de links relevantes, como para salas de videoconferência, eventos ao vivo no Youtube e na plataforma de perguntas e respostas Slido;

  • uma planilha de cronograma do projeto e de montagem dos times para cumprir as diversas funções da cobertura colaborativa em cada webinar; 

  • uma planilha de “decupagem ao vivo”, onde eram criadas anotações colaborativas sobre os conteúdos apresentados e construídos durante os eventos; 

  • um grande diagrama digital (construído na plataforma diagrams.net) para que organizássemos nossas ideias de criação de produtos áudio-scripto-visuais.

Todos esses documentos colaborativos, e outros arquivos de relevância, ficaram disponíveis em uma pasta do Google Drive, a que a equipe tinha acesso, e também num hipertexto hospedado no site da COMUNAVE. Dessa forma, criamos uma infraestrutura digital essencial à nossa organização como equipe de Cob-Colab.

Logo antes de começar pra valer, reunimos o grupo de participantes da Cob-Colab, formado pelo time executivo do PainelMar e por integrantes do Programa HOB que manifestaram interesse em participar, totalizando 14 pessoas, para compreender quais eram as aptidões, interesses e vontades de aprendizado de cada pessoa. Assim, integramos o time de uma forma mais orgânica e espontânea, a partir dessas características levantadas. Além disso, foram criados por nós diversos manuais de instrução e tutoriais em vídeo para formar a equipe nas ferramentas digitais que não eram todas as pessoas que conheciam como, por exemplo, o Zoom, o Slido, o Kdenlive, e até mesmo o Youtube. Com esse conhecimento acessível sobre as ferramentas, somado ao nosso suporte educomunicativo, a equipe se viu em segurança para seguir adiante.

 

MAS, E NA PRÁTICA? COMO FUNCIONA?

Os principais desafios eram, sem dúvida, encontrar ferramentas e estratégias para engajar e motivar o grupo a permanecer durante tantos dias envolvidos virtualmente. O cuidado com a comunicação era primordial, ainda mais de forma remota, onde até mesmo um “BOM DIA” em caixa alta poderia soar um tanto quanto exagerado ou agressivo. Em tempos de comunicação instantânea via WhatsApp, todo cuidado é pouco com a mensagem que queremos transmitir. Além disso, tínhamos algumas premissas básicas como: incentivar espaços dialógicos para trocas de ideias sem pré-julgamentos, colaborar para o senso de confiança do grupo e autonomia de cada um deles; manter uma escuta ativa e a compreensão do repertório cultural e profissional de todos para, a partir dos interesses e dificuldades, propor diferentes níveis de envolvimento.

Já no dia a dia, articulamos, às vésperas de cada webinar, reuniões de pauta com os integrantes para alinhar as funções, relacionadas a cada produto áudio-scripto-visual. Por exemplo, durante os webinários, havia pessoas responsáveis pela “decupagem ao vivo” em uma planilha compartilhada, que aqui significou documentar os momentos com conteúdos relevantes para a produção áudio-scripto-visual posterior.

Após cada webinário, articulamos, reuniões de criação, com a montagem de um diagrama que organiza as ideias de conteúdos a serem criados. Foram nesses momentos de chuva de ideias que surgiram a série de vídeos HOB Responde, um vídeo sobre Infodemia e o Glossário HOB, série de postagens para explicar termos e conceitos comuns às práticas do HOB, e também a produção de stories durante as falas dos convidados.

 

E O QUE APRENDEMOS DESTA EXPERIÊNCIA?

Acreditamos que, a partir da perspectiva da Educomunicação, a realização da Cob-Colab do II Seminário Inter-Redes Costeiras e Marinhas foi uma experiência de sucesso. E não somente porque conseguimos dar forma áudio-scripto-visual a muitos conhecimentos construídos e apresentados nos 11 dias de webinários, mas especialmente porque sentimos a transformação das pessoas envolvidas na cobertura em diversos sentidos.

Após a Cob-Colab, é notório e muito recompensador para nós, educomunicadores, ver as pessoas que participaram usarem suas novas ou melhoradas aptidões para realizar atividades similares e multiplicar os conhecimentos. Na sequência, os seguintes Seminários Inter-Redes Costeiras e Marinhas do programa HOB foram organizados e tiveram suas coberturas realizadas pela própria equipe executiva, e integrantes dessa cobertura se envolveram em outros eventos online, como os seminários promovidos pelo GERN/UNB, e também do Instituto Geração Oceano X - GOX.

Considerando que o programa HOB tem em vista a elaboração e implementação de uma estratégia de educomunicação socioambiental, esse projeto contemplou alguns aspectos educomunicativos. Dentre eles, destacamos o fato de que as pessoas participantes da cobertura melhoraram seu domínio sobre as linguagens e se apropriaram dos meios de produção áudio-scripto-visual para construir e disseminar os conhecimentos, ao mesmo tempo que vislumbraram as possibilidades, de forma prática, da realização de atividades de forma remota.

Para além de tantos aprendizados, essa experiência também serviu como projeto piloto e norteou um segundo projeto grandioso de Cobertura Colaborativa, dessa vez para os Colóquios Ibero-Americano e Catarinense de Educomunicação de 2021. Mas isso é assunto para um próximo relato...

 


Bom, escrevemos esse texto com quatro mãos e dois teclados. 

Um teclado é do João Lazaro, que é artista e educador, bacharel em artes visuais e mestrando em educação (Udesc), onde pesquisa a Gestão da Educomunicação. Também integra projetos fundamentados na educomunicação desde 2015, como o Educom.Cine, coordenado pelo educomunicador Rafael Gué Martini e é organizador da COMUNAVE - uma associação de artistas.

E, do outro, quem escreve é a Isabela Rosa, educomunicadora por formação e paixão! Ingressou na primeira turma do curso de Licenciatura em Educomunicação, em 2011, e desde então, se envolve em projetos com o foco em protagonismo juvenil, desenvolvimento comunitário e jogos. Tem bastante experiência em mediar oficinas e em formações para professores. 


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