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Como a educomunicação ajudou estudantes a refletir sobre desigualdades e resiliência durante a pandemia

Como a educomunicação ajudou estudantes a refletir sobre desigualdades e resiliência durante a pandemia
Bruno Ferreira
mai. 22 - 7 min de leitura
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Em uma manhã de terça-feira de outubro de 2020, Anyssa Moraes da Silva, 13 anos, se prepara para mais um dia de aula remota. Com seu caderno de poemas junto ao celular, escolhe um que vai ler no começo de um encontro virtual com outras 200 crianças e adolescentes de diferentes idades e escolas públicas da cidade de São Paulo. Anyssa é estudante do 8º ano do Ensino Fundamental da rede municipal e participou, no segundo semestre de 2020, de uma formação para se tornar mediadora de sua comunidade.

Diante do agravamento das desigualdades provocado pela pandemia de Covid-19, o processo formativo do qual a estudante participou teve a intenção de incentivar a análise crítica das dificuldades e formas de resiliência dos moradores de territórios de todas as regiões da cidade. 

Com um tema tão pesado para ser tratado com crianças e adolescentes, uma forma de iniciar os encontros com leveza partiu da própria Anyssa: ler poemas de autoria dos estudantes. Inspirados pelos versos dos colegas, os participantes fizeram do curso Imprensa Jovem Online - Estudante Mediador dos ODS um verdadeiro laboratório de ideias para mitigar desigualdades nas proximidades das escolas. E as conversas espontâneas entre crianças e adolescentes, que abriam os encontros telepresenciais da formação, ajudaram a mitigar um pouquinho da grande saudade que o espaço físico da escola deixou, com todos os seus ruídos e movimentos.

A experiência piloto, de iniciativa da UNESCO, em parceria com o Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, formou 250 pessoas, entre estudantes e professores, em intervenção comunitária a partir das mídias. Os participantes, ao final do processo, propuseram intervenções coletivas, a fim de contribuir para a redução de desigualdades em suas comunidades. 

 

Escutar para construir

Fui um dos três consultores contratados pela UNESCO para desenhar a metodologia dessa formação, bem como para aplicá-la. As colegas Grácia Lopes e Maytê Saad compuseram um trio bastante afinado comigo nessa experiência. Nosso trabalho envolveu muita escuta antes, durante e após a execução do curso, seja por meio da aplicação de questionários.

Inicialmente promovemos conversas com grupos focais de estudantes e professores da rede, para entender principalmente como estava sendo o processo de ensino e aprendizagem no tumultuado ano de 2020. Em resumo, precisávamos entender, antes de colocar o curso para rodar, o que estava funcionando e o que não estava sendo bacana para os estudantes da rede municipal de educação, no sistema remoto e a distância.

Constatamos que, para boa parte dos estudantes, o celular seria a principal ferramenta de acesso aos conteúdos preparados para a formação, bem como para participar dos encontros telepresenciais. Precisávamos, portanto, dialogar com essa realidade. Assim, criamos breves animações em vídeos, podcasts, apresentações em PowerPoint mais visuais e igualmente sucintas, para que fossem efetivamente apropriadas por estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. 

Em razão dessa diversidade, foi intenso o trabalho para chegar a uma linguagem atrativa e coloquial, seja nos materiais, seja nas perguntas dos formulários e ao longo dos encontros formativos e avaliativos, a fim de contemplar crianças, adolescentes e também educadores da rede.

Procuramos o princípio freireano do diálogo, que faz parte da cultura da própria rede municipal de educação, cujo currículo foi construído a partir de uma iniciativa chamada Estudante Tem Voz, de ampla consulta aos estudantes para entender o que fazia sentido para eles aprenderem na escola. 

Esse processo de coleta de impressões se deu não apenas para diagnosticar o público e suas demandas, mas também para acompanhar o processo e entender o legado que o curso deixou para todos os participantes, ao final da formação.

 

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como finalidade da formação

A formação de um mês e meio, entre setembro e outubro de 2020, utilizou-se da estratégia de educomunicação do Programa Imprensa Jovem, que estimula crianças e adolescentes das escolas municipais a produzir conteúdos midiáticos sobre suas comunidades. No entanto, não reuniu apenas estudantes participantes dessa iniciativa.

Na prática, o curso funcionou assim: Grácia, Maytê e eu nos revezamos como formadores a cada duas semanas no curso, cada qual responsável por um módulo específico. Iniciei o processo com o módulo de Alfabetização Midiática e Informacional. Grácia assumiu as duas semanas seguintes, com Comunicação e Educação em Saúde e Bem-estar. Maytê fechou o ciclo, com ênfase nas Competências Socioemocionais

Ao todo, o curso teve duração de aproximadamente dois meses, contando com seis semanas para os três módulos e mais duas para a concepção e apresentação dos projetos de intervenção comunitária, com vistas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) descrevem 17 desafios de desenvolvimento para o mundo, com suas respectivas metas, que devem ser atingidas até 2030 pelos países signatários das Nações Unidas. Os ODS buscam superar desafios ambientais, econômicos e políticos, além de reduzir desigualdades, propondo caminhos para a erradicação da pobreza, combate à fome, acesso à saúde, educação de qualidade, emprego digno, igualdade de gênero, entre outros objetivos.

O currículo da cidade de São Paulo é o primeiro do mundo alinhado com os ODS. De acordo com o documento, a aprendizagem em torno deles ajuda a “formar cidadãos éticos, responsáveis e solidários que fortaleçam uma sociedade mais inclusiva, democrática, próspera e sustentável.”

 

Formação em educomunicação e intervenção comunitária

Apesar dos assuntos serem diferentes, todos os módulos do curso envolveram produção midiática. Os grupos dos estudantes, com a mediação de seus professores, reuniam-se para conceber coletivamente produtos midiáticos que sintetizassem os aprendizados de cada módulo e que, ao mesmo tempo, fossem intervenções comunicativas comunitárias.

Dessa forma, as crianças, adolescentes e professores produziram posts para redes sociais alertando a comunidade para os riscos da desinformação e das fake news, produziram podcasts com base em entrevistas feitas de forma remota e com recursos digitais a profissionais de UBS e, por fim, produziram vídeos sobre suas emoções próprias e de pessoas de suas comunidades acerca dos desafios impostos pela pandemia. Esses produtos foram socializados nos próprios grupos de Whatsapp do projeto e durante os encontros telepresenciais, dedicados principalmente para a apresentação e avaliação conjunta do grupão de 200 participantes. 

Além da formação conduzida pelo trio de consultores que tive o privilégio de integrar, contamos com a articulação dos estudantes e professores feita pelo Prof. Carlos Lima, gestor do Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, bem como o apoio das profissionais da UNESCO Edneia Oliveira, Fernanda Lia e Maria Rehder, esta última mais próxima do grupo, mediando importantes momentos da formação acerca da construção dos projetos finais e de como apresentá-los objetivamente, em formato de pitch, isto é, apresentações breves, de até dois minutos.

Ao final do rápido e intenso percurso formativo, grupos de 34 escolas desenvolveram projetos de acolhimento de demandas de saúde de moradores, campanhas de sensibilização sobre serviços públicos de saúde e assistência social, bem como enfrentamento à desinformação em redes sociais e grupos virtuais das comunidades. 


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