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Uma revista, um manifesto e as juventudes conectadas na pandemia

Uma revista, um manifesto e as juventudes conectadas na pandemia
Juliane Cruz
ago. 12 - 8 min de leitura
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Por Adriana Carrer, Patrícia Jatobá e Juliane Cruz

A Revista Viração surgiu no início dos anos 2000 sob o objetivo de ser uma publicação feita com, por e para adolescentes e jovens.  Do projeto, nasceu uma organização da sociedade civil que desenvolve múltiplas ações e projetos educomunicativos. No ano passado, chegamos à edição 117 da revista, que em suas 40 páginas, lança um manifesto antirracista.  A escolha da temática e das pautas  são espelho de demandas da juventude: compreender o racismo estrutural e atuar pela luta antirracista. 

  • Revista disponível em versão digital na plataforma Issuu. 

Diferente das edições passadas da revista,  todo o processo educomunicativo de formação com os adolescentes e jovens - que passa pela chuva de ideias para escolher a temática geral, as reuniões de pauta, discussões acerca dos assuntos mediadas por educomunicadores e todas as outras construções coletivas - aconteceu totalmente a distância, devido ao distanciamento social imposto pela pandemia da COVID-19.

Outra diferença dessa edição está em sua proposta de ir além das páginas da revista. Foram desenvolvidos podcasts, artes, artigos para a Agência Jovem de Notícias e vídeos para aprofundamento nos assuntos, referenciados nas páginas e publicados nas redes sociais da Viração. Participaram desse desafio 26 jovens e 12 educomunicadores/as.

  • Vídeo produzido como material complementar da revista

Nessa publicação, os adolescentes e jovens trouxeram às suas produções questionamentos a uma sociedade que estratifica a população de acordo com a raça/cor e etnia, associadas a outros marcadores sociais da diferença, como gênero, religião, classe social e faixa etária. O Manifesto Antirracista também denuncia a naturalização dos privilégios de pessoas brancas e propõe a irremediável mudança de uma postura passiva em relação às discriminações raciais e os privilégios brancos para uma postura ativa na luta antirracista.

O processo de produção

Em agosto de 2020, foram realizadas reuniões online entre a equipe Viração e virajovens para pensar o conteúdo da revista a partir da temática antirracismo, previamente definida a partir de diálogos com as turmas de adolescentes e jovens dos projetos Geração Que Move, Pra Brilhar e correspondentes da Agência Jovem de Notícias.  Com base nas ideias de pauta que surgiram, foram criadas oito editorias:

  1. Branquitude;
  2. Cultura, artes, moda e linguagens;
  3. Educação, representatividades, periferias e assistência social;
  4. Mobilidade e migrações;
  5. Saúde;
  6. Segurança;
  7. Política, gênero e raça;
  8. Meio ambiente, desigualdades e racismo ambiental.

Com esses grupos temáticos criados, começamos o processo de desenvolvimento das pautas, planejados através de aplicativos de troca de mensagens instantâneas, videochamadas e um software que possibilita a escrita coletiva simultânea. Esse processo de criação foi mediado por educomunicadores/as da Viração, que indicaram referências e mobilizaram os grupos temáticos para a escrita entre os meses de agosto e novembro. 

No mês de novembro, aconteceu o processo de edição e diagramação da revista, que foi lançada na semana da consciência negra, junto aos produtos multimídia complementares, também criados por virajovens, sobre a temática. Em janeiro, a revista foi disponibilizada para o público na plataforma do Issuu
 

As dificuldades que enfrentamos no caminho

Planejar uma revista inteira construída por adolescentes e jovens, muitos sem experiência prévia na redação de textos para revistas, diante da impossibilidade de encontros presenciais de sensibilização - onde pudéssemos ler, tocar e apreciar em coletivo outros exemplares, além de conversar de forma mais fluída sobre as pautas - foi um grande desafio, junto dos múltiplos problemas de conexão à internet e todos os outros que decorrem ou se intensificaram na pandemia. 

Cumprir o cronograma também foi um desafio. Começamos a planejar a edição 117 em agosto de 2020 e a previsão de lançamento e disponibilização para o público era 20 de novembro de 2020, dia da Consciência Negra. Porém, dadas as dificuldades do trabalho remoto e de engajamento inicial dos virajovens, a revista só foi disponibilizada para o público em janeiro de 2021.

Em 20 de novembro, todos os textos já haviam sido finalizados, mas ainda era preciso finalizar a diagramação da revista e hiperlinkar as demais produções multimídia que aconteceram para essa edição: podcasts, artes, textos para a Agência Jovem de notícias e vídeos. 

Como fizemos e quais ferramentas usamos?

Para a reunião de pauta, utilizamos o Google Meet e a chuva de ideias sobre assuntos relacionados ao antirracismo foi desenvolvida no Jamboard. Assim, todos que estavam na reunião puderam editar o documento em tempo real para construir coletivamente. Essa primeira reunião de pauta e planejamento coletivo contou com a participação de mais de 20 jovens e durou cerca de uma hora e meia.


  • Imagem da chuva de ideias de pautas.

Criamos grupos no Whatsapp para cada uma das editorias (branquitude; cultura, artes, moda e linguagens; educação, representatividades, periferias, assistência social; mobilidade e migrações; saúde; segurança; política, gênero e raça; meio ambiente, desigualdades e racismo ambiental).

Dessa forma, facilitamos a comunicação entre as pessoas envolvidas para que pudessem pensar coletivamente nas matérias e produtos multimídia que seriam construídos. Também utilizamos os grupos para a mediação do processo de escrita das pautas - compartilhando referências, trocando ideias, recebendo versões do texto, realizando sugestões e negociando o cronograma. 

Para a escrita coletiva, revisão de conteúdo e desenvolvimento de produtos em outros formatos (podcasts, vídeos, ilustrações e fotografias), utilizamos as ferramentas do Google Drive.

 

 

Para o lançamento da edição, fizemos uma transmissão ao vivo no Youtube, usando a sala de reuniões da plataforma Jitsi. O evento foi uma conversa sobre antirracismo e sobre o processo de produção da edição. 

 

Revista Viração: Uma estratégia para conectar e mobilizar as juventudes 

A Revista Viração possui como proposta promover entre adolescentes e jovens a reflexão crítica sobre temáticas sociais relevantes, sensibilizando a juventude através da produção midiática, educação para a comunicação e expressão por meio das artes. Pautado na metodologia da educação entre pares, o processo de desenvolvimento das edições é baseado na pedagogia da comunicação e os/as educomunicadores atuam, também, como gestores da comunicação. Nessa edição, foi necessário planejar, ainda mais que nas anteriores, as estratégias de mediação tecnológica. Nesse sentido, podemos considerar que a revista é um programa de intervenção educomunicativa.

Nessa edição, a publicação discute a questão do racismo estrutural na sociedade brasileira e suas implicações e resgata a importância da representatividade, defesa da democracia e dos direitos humanos para alcançar uma sociedade comprometida em transpor as desigualdades baseadas nos marcadores sociais da diferença.

 


Assinam este texto:

Adriana Carrer é formada em Educomunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e atua como educadora na rede pública Estadual do Maranhão, dando aula do sexto ao nono ano em São Luís. Durante a graduação explorou as oportunidades que a universidade pública oferece: foi bolsista CNPq de iniciação científica, monitora acadêmica, presidente da bateria universitária da ECA USP e conheceu a Viração Educomunicação, quando estagiou em 2020 e se apaixonou pelo Terceiro Setor.

Patrícia Jatobá é graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e graduanda em Educomunicação pela mesma Universidade. Atuou como educadora e assistente de coordenação em diversas ONGS voltadas para a garantia dos direitos humanos com foco em jovens e adolescentes, comunidades quilombolas, indígenas e mulheres em situações de violência. Atualmente é estagiária de educomunicação na Viração Educomunicação, organização da sociedade civil que tem como missão inspirar e conectar as juventudes para a construção de uma sociedade justa, dialógica, participativa e plural. 

Juliane Cruz é graduanda em Educomunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como educadora voluntária no curso de Comunicação e Cidadania do Projeto Redigir, oferecido para a comunidade externa, desde 2018. Foi bolsista do Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE-USP). Atualmente, trabalha na Viração Educomunicação, onde faz parte da equipe de educomunicadores e atua como analista de projeto na implementação do U-Report Brasil, uma iniciativa global do UNICEF. Integra o coletivo de pesquisadores periféricos CPDOC Guaianás.


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