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A Educomunicação e o pensamento complexo de Edgar Morin

Foto do pensador Edgar Morin gesticulando. A imagem está com um filtro rosa.
Henrique Uyeda do Amaral
mar. 13 - 7 min de leitura
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Não é novidade que as novas tecnologias da comunicação alteraram de maneira significativa a nossa sociedade. O momento atual é marcado pela transição do paradigma positivista para o paradigma da complexidade. Isso significa que o pensamento, a visão de mundo, os valores e as formas de organização social vêm sofrendo grandes alterações.

Desde o século XVII, o pensamento ocidental é condicionado pela lógica cartesiana, baseada em relações de causa e efeito determinadas, predominante até os dias atuais. Este paradigma se sustenta basicamente sobre três pilares: Razão, Ordem e Separabilidade. No entanto, existem teorias contrárias a estes pilares, iniciando uma nova forma de pensamento, caracterizado pela visão e aceitação da complexidade.

Edgar Morin, filósofo da corrente do pensamento complexo, aponta para a necessidade da ciência articular os diversos conhecimentos específicos para resolver os problemas do mundo de maneira mais abrangente, que são complexos e se forem analisados por conhecimentos fragmentados levarão a conclusões incompletas.

Na Educação, estas mudanças ocorrem de maneira mais lenta, porém é necessário repensar alguns dos conceitos estruturais que sustentam o atual sistema educacional. A ideia desse texto é introduzir o conceito de complexidade de Morin e discutir sobre o seu impacto na forma como fazemos a Educação, indicando qual pode ser o papel da Educomunicação.


O pensamento complexo, por Edgar Morin

O conceito de complexidade é definido por Morin (2008, p. 20) como “um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo” e “o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal.” O autor apresenta a complexidade com características da confusão, da desordem, da ambiguidade e da incerteza:

“À primeira vista é um fenômeno quantitativo, a extrema quantidade de interações e de interferências entre um número muito grande de unidades. (...) Porém, a complexidade não compreende apenas quantidades de unidades e interações que desafiam as nossas possibilidades de cálculo; compreende também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. (...) A complexidade está portanto ligada a uma certa mistura de ordem e de desordem.” (MORIN, 2008, p.51).


No paradigma vigente da simplicidade, de acordo com Morin, o conhecimento tem a função de selecionar os elementos de ordem e de certeza, eliminando a desordem e a incerteza, retirando a ambiguidade e estabelecendo distinção. Morin (2008) diz que as operações de separação e redução das áreas do conhecimento, apesar de necessárias ao entendimento, correm o risco de torná-lo cego. O filósofo ressalta a necessidade de aceitar certa imprecisão nos fenômenos e também nos conceitos.

“(...) uma das grandes conquistas preliminares no estudo do cérebro humano é compreender que uma das suas superioridades sobre o computador é poder trabalhar com o insuficiente e o vago.” (MORIN, 2008, p. 53).

O pensamento complexo, diferentemente do cartesiano, aceita a desordem, o incerto e a ambiguidade, sendo possível elaborar instrumentos conceituais para isso. Nesta forma de pensar, a explicação de um fenômeno não pode ser reduzida a um princípio de ordem pura, nem de desordem pura, adotando um caráter misto. Já o caráter de fragmentação do conhecimento deve ser eliminado, criando a consciência de que sempre haverá incertezas, pois o pensamento complexo não é completo:

“Num sentido, o pensamento complexo tenta dar conta daquilo que os tipos de pensamento mutilante se desfaz, excluindo o que eu chamo de simplificadores e por isso ele luta, não contra a incompletude, mas contra a mutilação. Por exemplo, se tentarmos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade e a diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução mutilante. Portanto, nesse sentido, é evidente que a ambição da complexidade é prestar contas das articulações despedaçadas pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento.” (MORIN 2007, p. 176-177).

Como educar para o pensamento complexo

Em entrevista para a GloboNews, exibida em 23/02/2015, ao ser perguntado o que pode ser feito em relação ao ensino para preparar as futuras gerações, Morin propõe a introdução de temas que ainda não são discutidos nos ambientes educacionais, como "aceitação do erro", “o que é o conhecimento”, “compreensão humana”, “enfrentar as incertezas”.

Percebemos que há a necessidade de enfatizar o caráter humano e social do processo educativo, para além da aprendizagem de conhecimentos científicos especializados. A mudança da forma de pensar passa necessariamente por discutir em sala de aula elementos do próprio paradigma da complexidade.

Morin também fala da força da internet e de outras ferramentas da comunicação, tanto para o lado positivo quanto para o negativo, e ressalta a liberdade que a rede oferece para seus usuários.

O filósofo afirma que “a informação não é conhecimento, o conhecimento é a organização das informações”, de modo a reforçar a importância do pensamento complexo para as pessoas interpretarem melhor as informações nas quais estão imersas e transformá-las em conhecimento.


A Educomunicação e o pensamento complexo

Entendo que o paradigma da complexidade conversa diretamente com as bases da Educomunicação, cuja atuação ocorre na interface entre duas áreas “fragmentadas” nos estudos tradicionais: a Educação e a Comunicação. Também destaco a valorização de outras formas de saberes e conhecimentos, como um aspecto em comum.

Por isso, vejo as pessoas educomunicadoras assumindo um papel central na educação para o pensamento complexo. Primeiro, pela ênfase nos aspectos humanos e sociais no processo educativo, incentivando a reflexão sobre a realidade e o questionamento sobre as formas de pensar hegemônicas.

Depois, pela necessidade de educar para o uso das mídias, ampliando a capacidade de utilizar as informações digitais de maneira ética e responsável para a construção do conhecimento pessoal e coletivo.


Referências utilizadas:

  • GLOBONEWS. Entrevista com Edgar Morin, exibida em 23/02/2015. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=2sYQymE46I4>. Acesso em 23/11/2016.
  • MORIN, Edgar. Ciência como Consciência. Tradução de Maira D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. 10ª Edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
  • MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Tradução de Dulce Matos. 5ª Edição. Lisboa: Instituto Piaget, 2008.
  • SANTOS, Silvana Sidney Costa, HAMMERSCHMIDT, Karina Silveira de Almeida. A complexidade e a religação de saberes interdisciplinares: contribuição do pensamento de Edgar Morin. Rev Bras Enferm, Brasília, 2012 jul-ago; p. 561-5. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/reben/v65n4/a02v65n4>. Acesso em 22/11/2016.



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