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Uma reflexão sobre a produção midiática educativa no viés da educomunicação

Uma reflexão sobre a produção midiática educativa no viés da educomunicação
Henrique Uyeda do Amaral
jul. 28 - 14 min de leitura
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Na Educação do século XXI, as tecnologias digitais assumem um papel de relevância na mediação dos processos de aprendizagem, seja como material ou ferramenta de apoio para professores e estudantes na educação básica formal, como ambiente virtual na educação a distância (EaD) ou, até mesmo, como fonte de informação na aprendizagem autônoma, em contextos de educação informal ou de autoformação.

O conceito de mídia, segundo Consani (2024), transformou-se ao longo da história, inicialmente definida como sinônimo de meios de comunicação (rádio, TV, imprensa), atualmente se expande para indicar suportes de informação (livro, vídeo, disco). De acordo com Almeida (2024), um produto midiático pode ser entendido como qualquer material produzido e divulgado em veículos de comunicação, sejam eles de massa ou alternativos, adotando formatos diversos: “sistemas de comunicação interna, eventos, filme, novela, desenho animado, documentário, telejornal, artigo de jornal ou revista, fôlder, fanzine, peça publicitária, programa de rádio, livro, jogo eletrônico, internet, etc.” (p. 46).

Entende-se que os produtos de mídia, se concebidos com intenção educativa, podem ser recursos que contribuem para o processo de ensino-aprendizagem, especialmente no contexto de tecnologias digitais acessíveis a professores e estudantes. O presente texto tem como tema as mídias como recursos educativos e seu objetivo é propor uma reflexão crítica sobre a produção midiática com intenção educativa, sob a perspectiva da Educomunicação. Nas próximas seções, apresentaremos: o paradigma da Educomunicação; a produção midiática como uma forma de intervenção educomunicativa; e recomendações para projetos de produção midiática.


O paradigma da Educomunicação

A Educomunicação é um campo de intervenção social e do conhecimento voltado para a interface e a relação entre as áreas da Educação e da Comunicação, sob uma perspectiva da promoção do direito de expressão, estabelecimento do diálogo nos ambientes educativos e protagonismo dos estudantes. De acordo com Soares (2011), a Educomunicação tem como característica o desenvolvimento de “ecossistemas comunicativos”, estabelecendo uma teia de relações inclusivas, democráticas, midiáticas e criativas, por meio de ações construídas intencionalmente com a dialogicidade educomunicativa, a leitura crítica dos meios de comunicação e os espaços de cidadania e participação social.

O campo se consolida como objeto de pesquisa após a publicação dos resultados, em 1999, da chamada “pesquisa fundante”, realizada pelo Núcleo de Comunicação e Educação da USP, junto a especialistas de países latinoamericanos, com objetivo de sistematizar práticas que adotavam a comunicação como eixo da transformação social (Soares, 2011). Consani (2024) reforça que o pensamento educomunicativo se originou na América Latina, nas iniciativas de “educação popular” e “comunicação popular” espalhadas pelo continente, inspiradas em princípios da pedagogia democrática - surgida na Europa - e, principalmente, na pedagogia libertária do pensador brasileiro Paulo Freire

A Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), em texto de Soares (n.d.) para seu website, apresenta o conceito de Educomunicação como:

um paradigma orientador de práticas sócio-educativo-comunicacionais que têm como meta a criação e fortalecimento de ecossistemas comunicativos abertos e democráticos nos espaços educativos, mediante a gestão compartilhada e solidária dos recursos da comunicação, suas linguagens e tecnologias, levando ao fortalecimento do protagonismo dos sujeitos sociais e ao consequente exercício prático do direito universal à expressão. (Soares, n.d.)


Nesta definição mais recente, elaborada por profissionais da educomunicação, observa-se o entendimento do conceito como um paradigma norteador de práticas, por meio de valores como a democracia, a comunicação aberta, a gestão compartilhada, a solidariedade, o protagonismo dos sujeitos e a promoção de direitos universais, que se somam a outros aspectos apresentados por Soares (2011), como as relações inclusivas, a criatividade, o diálogo, a cidadania e a participação social. Entendemos, assim, que a produção midiática, como prática educativa, pode ser norteada pelo paradigma do campo da Educomunicação, privilegiando os aspectos dialógicos, inclusivos e sociais dos recursos educacionais e seus conteúdos.


Produção midiática como intervenção educomunicativa

Há o conceito das áreas de intervenção educomunicativas, utilizado por autores como Soares (2014), Consani (2024) e Almeida (2024) para buscar categorizar as diversas formas de ações da Educomunicação. O conceito de intervenção, neste caso, não significa uma imposição ou interdição, mas uma proposta de mediação inovadora, transformadora e libertadora, com um caráter necessariamente comunitário, impulsionando a mudança a partir do enfrentamento de problemas sociais de forma coletiva e com a compreensão de aspectos políticos, ideológicos e culturais (Almeida, 2024).

A Produção Midiática Educativa é considerada uma das áreas de intervenção educomunicativa, que consiste em “ações, programas e produtos da mídia elaborados a partir do parâmetro educomunicativo” (Soares, 2014, p. 138). Consani (2014) destaca que, no caso, o conceito de produção pode ser interpretado como uma modalidade de criação intelectual ou artística, como forma de comunicação e democratização do conhecimento, em contraposição à acepção tradicional indissociável da lógica capitalista. O autor acrescenta que esta forma de produção implica na apropriação da mídia, como um instrumento de transformação, reforçando o entendimento do conceito de mídia como “um ambiente dentro do qual a sociedade vive e interage” (p. 91), por exemplo, em espaços virtuais e plataformas digitais.

A produção midiática como área de intervenção educomunicativa tem como foco principal a “elaboração de conteúdo midiático com intencionalidade educativa”, ou seja, tem como atividade a “comunicação de valores e conceitos usando produtos midiáticos”, e, norteada pelo paradigma da Educomunicação, apoia-se nos valores de “igualdade de acesso, relação dialógica horizontalizada entre todos os envolvidos, com tomadas de decisão participativa, cidadania e democracia” (Almeida, 2024, p. 41). Outro fator relevante é entender que esta intervenção “Enquadra-se no ambiente da comunicação mediada, em que emissor e receptor não estão fisicamente presentes no mesmo local, e a mensagem flui por meio de um suporte tecnológico” (Almeida, 2024, p. 45-46). Podemos identificar os recursos educativos digitais como exemplos deste enquadramento, em materiais para a Educação formal (utilizados por estudantes e professores) e, especialmente, na Educação a distância.

Destaca-se que, neste contexto da produção midiática como área de intervenção educomunicativa, não se consideram as produções amadoras, feitas por estudantes, professores e outros participantes, nas quais o objetivo não é que o conteúdo midiático ensine algo, mas tem como meta a aprendizagem dos participantes por meio da vivência do processo e da reflexão sobre o mesmo, enquadrando-se na área de intervenção nomeada “educação para a comunicação” (Almeida, 2024).

No contexto dos recursos educativos digitais, entendemos que a abordagem educomunicativa na produção midiática pode contribuir para a adoção de tecnologias e metodologias com caráter mais crítico e participativo nas diversas esferas educacionais. Como forma de contrapor a segregação, a competição e a dataficação massiva promovidas por redes sociais e outras tecnologias contemporâneas, um caminho é a elaboração de recursos que privilegiam a coletividade, a inclusão e a democracia, concebidos e produzidos sob os valores da Educomunicação. A seguir, vamos refletir sobre recomendações para projetos de produção midiática, dentro do viés educomunicativo.


Recomendações para projetos de produção midiática

Um projeto de produção midiática educomunicativa consiste em uma ou mais atividades executadas por indivíduo ou equipes, que dominam o tema a ser ensinado e as técnicas e linguagens de comunicação, resultando em materiais midiáticos diversos (vídeos, podcasts, jogos, manuais, etc) com intencionalidade educativa, seja para transmissão em massa (rádio, televisão, websites) ou em círculos fechados (ambiente virtual de aprendizagem, plataforma institucional) (Almeida, 2024).

Podemos identificar elementos que compõem a produção midiática, como o conteúdo abordado, o processo produtivo, as mídias escolhidas, os recursos necessários, a interatividade e a relação com o público-alvo e, no contexto da intervenção educomunicativa, a proposta de ação transformadora para os participantes. O desafio do educomunicador é encontrar soluções para que os valores da inclusão, diálogo, gestão democrática e participação cidadã, estejam presentes e refletidos em cada elemento do projeto.

No exemplo da Educação a Distância (EaD), a escolha das mídias e recursos digitais está diretamente relacionada com a possibilidade de proporcionar uma educação dialógica ou não, como é o caso de cursos com configuração puramente instrucional, que entregam os conteúdos aos alunos de forma isolada, sem interação efetiva com outros participantes e sem conexão com o entorno social e o mundo a sua volta (Fonteles, 2015). Entendemos que, sob uma ótica da Educomunicação, os recursos educativos digitais precisam ser planejados com a intencionalidade de favorecer a interação entre sujeitos, gerar curiosidade e promover a ação cidadã.

Fonteles (2015) apresenta a visão de que a gestão democrática da comunicação, no contexto da EaD, pode contribuir para integrar elementos existentes (recursos tecnológicos, sistemas digitais, conteúdos preexistentes) a novas soluções para melhorar o fluxo comunicacional entre os participantes do ambiente educativo, promovendo o diálogo e a interação entre os educandos. O autor sugere a descentralização das informações como forma de manter o ambiente aberto ao diálogo, por exemplo: garantindo a presença de múltiplas vozes e pontos de vista no conteúdo elaborado; conectando os sujeitos em formação a problemas reais e atuais; ou tornando acessível ao público mais amplo cursos elaborados por organizações da sociedade civil ou governamentais que poderiam contribuir para a formação de mais pessoas.

Um exemplo da gestão democrática da comunicação é o projeto Educom.TV, que foi realizado pelo Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP) e consistiu na formação de mais de dois mil professores da rede pública estadual de São Paulo, no tema “Linguagem audiovisual e Educomunicação”, no ano de 2002. A equipe do projeto adotou a Educomunicação como base para a realização dos procedimentos internos: estabelecendo uma hierarquia de competências, com relações horizontais na tomada de decisões e a produção colaborativa dos conteúdos do curso; a construção coletiva da plataforma web, envolvendo os técnicos programadores e os profissionais conteudistas; e propondo formas de dialogar com os cursistas, por exemplo, planejar um encontro presencial para estreitar vínculos e propiciar discussões entre a turma, que resultou em alto grau de engajamento póstumo no ambiente virtual e baixa taxa de abandono (Soares, 2002).

Entendemos que a gestão democrática da comunicação torna-se essencial na produção midiática educomunicativa, promovendo o diálogo entre a equipe do projeto, adotando uma multiplicidade de fontes de informação e planejando interações estratégicas com o público-alvo. Além disso, a escolha das mídias e tecnologias deve ser realizada com a intencionalidade de: envolver os participantes e incentivar seu protagonismo, tornando-os sujeitos ativos no processo de aprendizagem conectados ao mundo ao seu redor; fomentar o diálogo entre participantes e entre o indivíduo e as diversas fontes e pontos de vista apresentados no conteúdo; e elaborar o conteúdo com linguagem crítica e reflexiva, promovendo os valores de inclusão, democracia e cidadania.


Considerações finais

Este texto buscou realizar uma reflexão crítica sobre a produção midiática educativa sob o viés da educomunicação, apontando o entendimento do conceito de mídia e produto midiático como possíveis recursos educativos, compreendendo o paradigma da Educomunicação e seus valores de diálogo, participação e protagonismo, e ainda apresentando a produção midiática como uma intervenção educomunicativa.

Apontamos a contribuição de uma abordagem educomunicativa na produção de mídias para a educação, no sentido de proporcionar uma aprendizagem crítica, participativa e inclusiva, frente ao cenário hegemônico de tecnologias que podem promover a segregação em bolhas, a competição entre usuários e o extrativismo de dados. A visão da Educomunicação na produção midiática privilegia a criação intelectual voltada para a democratização do conhecimento (Consani, 2024) e para a proposta de transformação e enfrentamento de problemas sociais (Almeida, 2024).

Como principal recomendação para projetos de produção midiática, ressaltamos a gestão democrática da comunicação (Fonteles, 2015), refletindo na organização dos procedimentos e atividades do projeto, como elaboração de conteúdos e construção de plataforma digital (Soares, 2002). Neste processo, a escolha das mídias e tecnologias pode contribuir para a interatividade, diálogo e possibilidades de ação participativa no público-alvo do produto midiático. Ainda, reforça-se, com ações alinhadas à prática educomunicativa, a necessidade de: pensar em conteúdos que tragam uma diversidade de pontos de vista para proporcionar a reflexão crítica, propor atividades interativas que aproximem a teoria da prática e do mundo real, e promover a acessibilidade aos cursos de organizações da sociedade civil e do governo (Fonteles, 2015).

A produção midiática educativa, norteada pelo paradigma da Educomunicação, pode contribuir para a formação crítica e para o protagonismo cidadão de professores, estudantes e profissionais de outras áreas, para além da Educação. Porém, de acordo com Soares (2014), esta área de intervenção educomunicativa ainda necessita de maior produção acadêmica e de estudos de caso que contribuam para a compreensão do seu real impacto e das possibilidades de produção de mídia, sob o viés da Educomunicação.


Referências bibliográficas

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